Como ler esta análise

Esta página reúne visualizações e análise das eleições legislativas em Mato Grosso do Sul entre 2002 e 2022, com foco em três cargos: Deputado Federal, Deputado Estadual e Senador. Os dados provêm do TSE via pacote electionsBR.

O principal indicador utilizado é o índice de Gini eleitoral, adaptado da economia para o contexto das eleições proporcionais e majoritárias:

Gini alto (próximo de 1)

Os votos do município estão fortemente concentrados em um único candidato — fenômeno típico de lideranças locais dominantes ou currais eleitorais.

Gini baixo (próximo de 0)

Os votos estão dispersos entre muitos candidatos — ambiente mais competitivo, sem candidato capaz de monopolizar a preferência local.

Nos mapas, tons de magenta escuro indicam alta concentração; tons lilás claro indicam maior dispersão. A escala varia entre 0,75 e 0,90 para os cargos legislativos proporcionais e entre 0,2 e 0,8 para o Senado.

Deputado Federal

Quatro dimensões da competição eleitoral para a Câmara dos Deputados nos municípios de Mato Grosso do Sul, com base nos votos nominais de 2002 a 2022.

Margem de vitória — Deputado Federal em MS, 2002–2022

Margem de vitória (diferença percentual entre o 1.º e o 2.º candidato mais votado em cada município). Fonte: TSE via electionsBR.

2010: menor competição; 2018: maior — e os extremos revelam redutos históricos

Dados gerais: margem média oscila entre 8,6% e 11,7%

A margem de vitória média entre o 1.º e o 2.º candidato mais votado em cada município oscila: 2002 = 11,3%; 2006 = 10,0%; 2010 = 11,7% (pico — menor competição); 2014 = 8,9%; 2018 = 8,6% (mínimo — maior competição); 2022 = 9,8%. Contrariando a percepção intuitiva, 2010 — ano de maior crescimento econômico — foi o menos competitivo na escala municipal. A eleição senatorial simultânea de Dilma Rousseff mobilizou votos, o que pode ter concentrado a atenção em poucos candidatos federais com base local sólida (Power & Zucco, 2009).

Outliers históricos: Brasilândia 2010 (60,7%) e São Gabriel do Oeste 2002 (50,4%)

Os maiores redutos do período foram Brasilândia em 2010 (margem de 60,7% — o candidato mais votado obteve 69,6% dos votos nominais do município) e São Gabriel do Oeste em 2002 (50,4%). Nesses casos, um único candidato com raízes locais muito sólidas dominou de forma absoluta, em municípios com poucos candidatos competitivos. No topo do ranking histórico também aparecem: Nova Andradina 2010 (50,3%), Rio Negro 2022 (45,1%) e Sidrolândia 2006 (44,2%).

Municípios mais competitivos: Douradina 2014 e Coxim 2022

No extremo oposto, Douradina em 2014 apresentou margem praticamente zero — o 1.º e o 2.º candidato mais votados chegaram a empate técnico nos votos nominais. Coxim em 2022 registrou margem de apenas 0,02%. Campo Grande aparece repetidamente entre os municípios mais competitivos: 0,05% em 2010 e 0,15% em 2022 — reflexo da multiplicidade de candidatos com bases no eleitorado urbano da capital.

2022 não reverte a tendência — a fragmentação continua crescendo

A leve alta da margem de 2018 (8,6%) para 2022 (9,8%) não significa retorno ao padrão histórico. O HHI, que mede a concentração de forma mais robusta, continua caindo (de 0,159 em 2002 para 0,102 em 2022), confirmando a tendência de fragmentação crescente do voto. A polarização PT–PL em 2022 não criou redutos: ela dividiu o eleitorado de cada município entre mais candidatos e blocos, resultando em margens menores no agregado.

Concentração de votos (HHI) — Deputado Federal em MS, 2002–2022

Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI): quanto mais próximo de 1, maior a concentração dos votos em poucos candidatos. Fonte: TSE via electionsBR.

HHI cai de 0,159 para 0,102 em vinte anos: fragmentação consistente e monotônica

O que o HHI mede: estrutura de mercado eleitoral local

O HHI (Herfindahl-Hirschman Index) é um índice clássico de concentração de mercado aplicado ao voto: soma dos quadrados das proporções de votos de cada candidato. HHI próximo de 1 = um candidato monopoliza; HHI próximo de 0 = votos pulverizados igualmente entre muitos. Valores acima de 0,25 indicam mercado altamente concentrado; abaixo de 0,15, mercado fragmentado. Na eleição proporcional para Dep. Federal, com dezenas de candidatos por município, o padrão esperado é HHI baixo — e é exatamente o que os dados confirmam.

Médias anuais: queda consistente, com única inflexão em 2010

HHI médio por ano: 2002 = 0,159 → 2006 = 0,155 → 2010 = 0,178 (única alta) → 2014 = 0,135 → 2018 = 0,115 → 2022 = 0,102. A queda acumulada de 36% ao longo de 20 anos confirma fragmentação progressiva do voto. A única inflexão, em 2010, coincide com a eleição de Edson Giroto (PR) e Reinaldo Azambuja (PSDB) — candidatos com bases municipais muito sólidas naquele ciclo, que concentraram votos em municípios específicos.

2010: outliers extremos — Brasilândia (HHI 0,498) e Nova Andradina (0,407)

O pico de HHI em municípios individuais ocorre em 2010: Brasilândia com HHI de 0,498 (metade dos votos concentrados em um único candidato), Nova Andradina com 0,407, Maracaju com 0,432. Esses são os casos mais próximos de monopolização eleitoral em eleição proporcional observados no período. Em contraste, Campo Grande 2022 atingiu o menor HHI da série: 0,0345 — completamente pulverizado.

2022: o mais fragmentado de todo o período analisado

Com HHI médio de 0,102, 2022 representa o mercado eleitoral mais fragmentado desde 2002. A reforma eleitoral de 2017 (fim das coligações nas eleições proporcionais), obrigando cada partido a apresentar candidatos próprios sem o guarda-chuva de coligações, redistribuiu votos entre mais candidatos e partidos, acelerando a desconcentração. O efeito é visível no mapa: 2022 é o mais amarelo-claro de todos.

Desigualdade eleitoral (Gini) — Deputado Federal em MS, 2002–2022

Gini eleitoral por município: quanto mais próximo de 1, mais os votos estão concentrados em um único candidato. Fonte: TSE via electionsBR.

Gini estruturalmente alto (~0,83): a assimetria interna persiste mesmo com mais fragmentação

Por que o Gini é alto mesmo com HHI baixo?

O Gini eleitoral mede a desigualdade na distribuição dos votos entre candidatos dentro de um município — independentemente do número de candidatos. Com dezenas de candidatos, é quase inevitável que a distribuição seja altamente assimétrica: poucos candidatos com centenas de votos, muitos com dezenas. Por isso, o Gini permanece elevado (0,82–0,85) mesmo quando o HHI cai: há mais candidatos viáveis, mas a maioria dos candidatos continua muito abaixo dos líderes. As duas métricas captam aspectos complementares, não redundantes.

Valores médios anuais: estabilidade com pico em 2014

Gini médio: 2002 = 0,829 → 2006 = 0,824 (mínimo) → 2010 = 0,835 → 2014 = 0,853 (pico) → 2018 = 0,835 → 2022 = 0,825. O pico em 2014 pode refletir a polarização PT–PMDB naquele ciclo, que concentrou o voto nos candidatos das legendas principais e marginalizou os demais. A variação é pequena (±0,015), confirmando que o padrão de assimetria é estrutural — não conjuntural.

Outliers no leste: municípios com candidato dominante absoluto

Os pontos mais escuros no mapa (magenta intenso, Gini acima de 0,90) se concentram sistematicamente na região leste e centro-leste do estado, não no noroeste ou no interior como se poderia supor. Em 2010, essa região apresenta simultaneamente HHI alto, Gini alto e share alto — evidência convergente de candidatos locais que concentraram votos de forma excepcional. Os municípios de Brasilândia e Nova Andradina — os dois outliers principais — ficam na região leste do estado.

Paradoxo do período: mais fragmentação, mas assimetria que não cai

O Gini não acompanha a queda do HHI de 2014 a 2022: enquanto o HHI cai de 0,135 para 0,102 (fragmentação crescente), o Gini permanece estável em torno de 0,83. O paradoxo se resolve pelo aumento do número de candidatos: mais candidatos, com a maioria recebendo poucos votos, muda o HHI (mais candidatos dividindo o topo) sem afetar o Gini (a cauda longa de candidatos com votação mínima permanece). A entrada de novos partidos e candidaturas via redes sociais cria cada vez mais candidatos sem base sólida, mantendo o Gini alto.

Força territorial do 1º colocado — Deputado Federal em MS, 2002–2022

Percentual de votos recebidos pelo candidato mais votado em cada município. Tons mais escuros indicam maior força territorial do líder local. Fonte: TSE via electionsBR.

Share do 1.º caiu de 29% para 22%: o líder municipal perde força a cada eleição

Valores médios anuais: declínio consistente pós-2010

Share médio do 1.º colocado: 2002 = 29,0% → 2006 = 27,5% → 2010 = 30,3% (pico) → 2014 = 24,9% → 2018 = 23,0% → 2022 = 22,1% (mínimo). O padrão é claro: o candidato mais votado em cada município captura parcela cada vez menor dos votos nominais totais. Em 2022, o candidato líder local obteve em média apenas 22% dos votos do município — o que, em eleição proporcional com quociente estadual, pode não ser suficiente para garantir eleição mesmo com a maior votação local.

Máximos históricos: Brasilândia 2010 (69,6%) e São Gabriel 2002 (58,3%)

Os únicos municípios com share acima de 60% em todo o período são Brasilândia em 2010 (69,6%) e São Gabriel do Oeste em 2002 (58,3%). Nessas eleições, o candidato líder capturou a maioria absoluta dos votos nominais de um município inteiro — fenômeno excepcional numa eleição proporcional com múltiplos candidatos. Também se destacam: Nova Andradina 2010 (62,0%) e Sidrolândia 2006 (54,2%).

Campo Grande: arena mais fragmentada — share abaixo de 15%

A capital Campo Grande apresenta os menores shares do estado, reflexo da multiplidade de candidatos com base eleitoral urbana. Em 2022, o candidato mais votado em Campo Grande obteve apenas 8,7% dos votos nominais do município — o menor índice de toda a série histórica para qualquer município do estado. Em 2010, Campo Grande chegou a 14,5%. A capital é a arena proporcional mais aberta de MS: nenhum candidato se aproxima de domínio.

O paradoxo do share baixo com margem alta

Em municípios pequenos do interior, é possível ter share baixo (ex. 35%) com margem alta (ex. 30%) se o 2.º colocado ficou muito abaixo do 1.º. Esse padrão confirma que o eleitorado rural, mesmo sem concentrar votos num único candidato, distribui de forma bastante desigual entre os 2–3 candidatos líderes e os demais. A queda do share médio estadual de 29% para 22% em 20 anos é, em termos eleitorais, uma transformação significativa do comportamento do eleitor médio sul-mato-grossense.

Quem são os deputados federais de MS?

Rankings dos mais votados, trajetórias individuais de carreiras longas, evolução da composição partidária da bancada e bases geográficas na eleição de 2022.

Top 12 Deputados Federais mais votados — MS (2002–2022)

Barras cheias = eleitos; barras transparentes = não eleitos. Cor indica o partido na eleição correspondente. Fonte: TSE via electionsBR.

Vander Loubet (PT) e Geraldo Resende: 6 eleições consecutivas — os mais longevos da série

Os mais votados por eleição: rotatividade no topo

1.º mais votado por eleição: 2002 = Vander Loubet (PT, 10,2%); 2006 = Vander Loubet (PT, 10,8%); 2010 = Edson Giroto (PR, 12,5%); 2014 = José Orcírio Miranda dos Santos — Nelsinho (PT, 13,7%); 2018 = Rosiane Modesto (PSDB, 10,6%); 2022 = Marcos Pollon (PL, 7,7%). Nota-se a queda do share do 1.º: de 13,7% em 2014 para 7,7% em 2022 — reflexo da fragmentação crescente.

Vander Loubet (PT): 6 eleições, do 1.º em 2002 ao 4.º em 2022

O nome mais longevo da bancada federal sul-mato-grossense: Vander Loubet aparece nos rankings de todas as 6 eleições — 2002 (1.º, 10,2%), 2006 (1.º, 10,8%), 2010 (3.º, 9,9%), 2014 (5.º, 5,9%), 2018 (7.º, 4,9%), 2022 (4.º, 5,7%). Sua trajetória ilustra a resistência de candidatos petistas no estado mesmo após o declínio territorial do PT: ele manteve base sólida no sudoeste e no movimento sindical mesmo quando o PT caiu de 36 para 2 municípios dominados.

Geraldo Resende: o mais constante do período — 6 eleições seguidas

Geraldo Resende (PPS→PSDB) é a outra figura de máxima longevidade: 2002 (9.º, 4,0%), 2006 (5.º, 6,2%), 2010 (5.º, 6,7%), 2014 (3.º, 7,5%), 2018 (5.º, 5,4%), 2022 (3.º, 7,2%). Ao contrário de Vander Loubet, Resende cresceu ao longo do período e migrou do PPS para o PSDB — aproveitando a ascensão do partido nos ciclos de 2018 e 2022. É o único candidato que melhorou consistentemente sua posição entre 2002 e 2022.

Os novos entrantes e a renovação parcial

A bancada não é imóvel: novas figuras emergem em cada ciclo. Edson Giroto (PR) chegou ao topo em 2010 (1.º, 12,5%) e depois saiu. Tereza Cristina (PSB→DEM) foi 4.ª em 2014 e 4.ª em 2018 antes de se tornar ministra e depois senadora em 2022. Marcos Pollon (PL) emergiu em 2022 como 1.º colocado com 7,7% — candidato bolsonarista sem histórico anterior de votações expressivas no estado. A renovação existe, mas convive com titulares que resistem por duas décadas.

Trajetória eleitoral — Deputados Federais recorrentes em MS (2002–2022)

Votos nominais totais no estado por eleição. Ponto aberto = não eleito; ponto fechado = eleito. Cada linha representa um candidato recorrente. Fonte: TSE via electionsBR.

Carreiras longas, oscilações eleitorais e o momento de pico de cada candidato

Candidatos com picos bem definidos

Diversas trajetórias exibem um pico claro de votação seguido de declínio gradual — padrão típico de políticos que alcançam o auge da visibilidade em determinado cargo (ou em associação com um projeto político nacional como o lulismo ou o bolsonarismo) e depois perdem gradualmente o eleitorado à medida que o ciclo político muda. O crescimento de Humberto Rezende e Dagoberto Nogueira em 2022 é notável por ocorrer tarde em carreiras já longas.

Pontos abertos: derrota sem abandono

Candidatos com ponto aberto em determinado ano (não eleito) que retornam eleitos no ciclo seguinte demonstram que a carreira política em MS tem alta resiliência: uma derrota pontual não elimina uma base eleitoral consolidada. O período de "derrota" frequentemente serve para reorganizar a base, trocar de partido ou acumular capital político em outras arenas (câmara municipal, secretaria, etc.).

Convergência em 2018 e 2022

Em 2018, várias trajetórias mostram queda ou estagnação — a eleição foi atípica pelo efeito Bolsonaro, que desviou votos para candidatos novos (Sborowski, por exemplo). Em 2022, algumas trajetórias registram saltos acentuados para cima, reflexo da polarização nacional que amplificou os votos tanto de candidatos do campo lulista quanto do campo bolsonarista, reduzindo o espaço dos candidatos de centro com bases intermediárias.

Composição partidária dos Dep. Federais eleitos — MS (2002–2022)

Distribuição de vagas por partido por eleição. MS elege 8 deputados federais. Fonte: TSE via electionsBR.

PMDB e PT com empate em 2014; PSDB com 62 municípios desde 2018 — a maior virada da série

2002–2014: bipartidarismo PMDB-PT com equilíbrio crescente

A composição da bancada federal de MS ao longo de 2002–2014 reflete o bipartidarismo do período: PMDB e PT alternam a liderança em número de municípios dominados, com os demais partidos nunca ultrapassando 10 municípios. Em 2014, o empate perfeito PMDB=37, PT=37 representa o clímax desse equilíbrio — a bancada eleita naquele ciclo foi a mais disputada da série.

2018: PSDB assume 62 municípios — mudança estrutural, não conjuntural

A eleição de 2018 não foi apenas uma vitória do PSDB: foi uma reestruturação do mapa eleitoral de MS. O partido passou de 8 municípios dominados (2014) para 62 (2018) — um ganho de 54 municípios num único ciclo. Isso só é possível quando há uma mudança de preferências no eleitorado, não apenas uma migração de candidatos. O governo Azambuja (2014–2022) e a onda conservadora nacional converteram candidatos previamente de outros partidos para o PSDB, levando o partido a dominar municípios que antes votavam PT ou PMDB.

2022: consolidação, com PL abrindo espaço à direita do PSDB

Em 2022, o PSDB mantém 62 municípios, mas o PL aparece com 6 — indicando que a âncora conservadora do eleitorado não é mais monolítica: parte do eleitorado que votava em candidatos do PSDB em 2018 migrou para candidatos do PL em 2022. A composição federal de 2022 tem o perfil mais à direita da série: PL (escore 8,5), PSDB (6,5) e PP (7,5) dominando o território.

O PMDB/MDB: de 35 municípios em 2002 a 1 em 2022

A trajetória do PMDB/MDB no federal é a de maior decadência: 35 municípios em 2002, 28 em 2006, 30 em 2010, 37 em 2014 — e então a queda: 3 em 2018, 1 em 2022. O colapso é resultado de múltiplos fatores: Operação Lava Jato (2015–2018), perda do controle do governo federal, desbandada de lideranças para PSD, MDB, Solidariedade. Em 20 anos, o partido que era o mais poderoso de MS tornou-se marginal na política federal.

Base eleitoral dos Dep. Federais eleitos — MS (2022)

Eleição 2022. Cor indica o candidato eleito com mais votos em cada município. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

Sete territórios: cada deputado federal com sua zona de influência no mapa de MS

Camila Bazachi (PT): o noroeste petista

Camila Bazachi domina a faixa noroeste do estado — municípios do Pantanal e da região de Corumbá, historicamente mais favoráveis ao PT pela presença de trabalhadores rurais sem terra e comunidades ribeirinhas. Sua votação nessa região foi suficiente para elegê-la na estreia, demonstrando que o PT mantém raízes territoriais sólidas no MS rural apesar da derrota de Lula no estado em 2022.

Humberto Rezende (PSDB): o maior território

Humberto Rezende controla a maior fatia territorial do mapa — nordeste e centro-norte do estado, incluindo municípios do Bolsão (Paranaíba, Três Lagoas, Selvíria). Sua base geográfica extensa combina municípios agropecuários de médio porte onde o PSDB tem tradição de prefeitos e vereadores aliados — a máquina partidária territorial funcionando como amplificadora de voto proporcional.

Marcos Sborowski (PL): o mais votado sem o maior território

Apesar de ter sido o mais votado do estado, Sborowski (PL) não possui o maior território: seus municípios-líderes se concentram no leste e centro do estado — incluindo municípios próximos a Campo Grande. Isso ilustra uma estratégia eleitoral diferente da territorial: votos urbanos concentrados em poucos municípios grandes com eleitorados maiores, sem necessariamente dominar o interior.

Vander Luiz (PT) e Geraldo Resende (PSDB): fragmentação Sul

Vander Luiz e Geraldo Resende dividem o sul do estado em municípios alternados — padrão de fragmentação territorial que reflete a competição direta entre PT e PSDB nos municípios do cone sul (fronteira com o Paraguai e com o Paraná). Nenhum dos dois domina continuamente; os municípios estão intercalados, confirmando que essa região é a mais competitiva da bancada federal sul-mato-grossense.

Qual partido ganhou cada municipio?

Partido com mais votos nominais em cada municipio por eleicao. Leia em conjunto com o ranking (G1) e a base geografica individual (G4) para identificar onde as trocas de legenda coexistem com a persistencia dos mesmos candidatos.

Partido dominante por municipio - Deputados Federais MS (2002-2022)

Partido com mais votos nominais em cada municipio por eleicao. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

Do bipartidarismo PT–PMDB à hegemonia do PSDB: 62 dos 79 municípios em 2018 e 2022

2002: PMDB lidera com 35 municípios, PT em segundo com 23

No primeiro ciclo analisado, o PMDB domina numericamente (35 de 77 municípios), seguido pelo PT (23). PFL, PL e PPS somam os outros 12. O PMDB era o partido da máquina municipal e estadual — com o governador José Orcírio (Zeca do PT) recém-eleito em 2000, a bancada estadual ainda refletia o arranjo pré-lulista. O PT avança no interior em seu maior momento de mobilização territorial — candidatos como Vander Loubet (10,2% dos votos no estado) e Antônio Biffi construíam bases municipais sólidas.

2006: único ano com PT na liderança — 36 municípios para o partido de Lula

Em 2006, o ciclo lulista produz o melhor resultado territorial do PT na história da série: 36 de 78 municípios. O PMDB cai para 28 municípios. O PDT aparece com 7 — resultado da candidatura de Dagoberto Nogueira (8,95% dos votos estaduais, 3.º mais votado). É o ponto de maior influência territorial da esquerda em MS no período analisado. Vander Loubet lidera com 10,8% dos votos estaduais.

2010–2014: equilíbrio e empate — PMDB e PT disputam município a município

Em 2010: PMDB=30, PT=27, PR=8, PSDB=8 — equilíbrio próximo. Em 2014: PMDB=37, PT=37 — empate perfeito nos municípios, com PSB (2) e PSDB (2) nas margens. Esses dois ciclos revelam o MS como estado verdadeiramente bipartidário, com o PMDB de Waldemir Moka e o PT de José Orcírio (Nelsinho, 1.º em votos em 2014 com 13,7%) competindo em praticamente todos os municípios simultaneamente.

2018 e 2022: PSDB domina 62 dos 79 municípios — a maior virada territorial

A virada de 2018 é a maior transformação da série: o PSDB, de 2–8 municípios nos ciclos anteriores, passa para 62 de 79 (78% do estado) — num único ciclo. DEM aparece com 8 e MDB com 3; PT cai para 2. Em 2022 o padrão se mantém: PSDB=62, PL=6, PT=5, PP=3. A eleição de Reinaldo Azambuja como governador (2014 e 2018) e o alinhamento à onda bolsonarista explicam o fenômeno. Nota: o PSDB em MS não é o PSDB nacional de Temer — é um partido regionalmente enraizado com perfil conservador-governista.

Quem são os deputados estaduais de MS?

Rankings dos mais votados na ALEMS, trajetórias de carreira, evolução da composição da bancada estadual e mapas individuais de base eleitoral em 2022.

Top 15 Deputados Estaduais mais votados — MS (2002–2022)

Barras cheias = eleitos; barras transparentes = não eleitos. Cor indica o partido na eleição correspondente. Fonte: TSE via electionsBR.

Marcos Marcello Trad: 1.º em 2010 e 2014; Reinaldo Azambuja: 1.º em 2006 e depois governador

Os mais votados por eleição: trajetórias para outros cargos

1.º mais votado (estadual) por eleição: 2002 = Nelson Trad Filho (PTB, 3,77% — depois senador em 2018); 2006 = Reinaldo Azambuja (PSDB, 4,34% — depois governador 2014–2022); 2010 = Marcos Marcello Trad (PMDB, 4,71% — depois prefeito de Campo Grande 2016–2024); 2014 = Marcos Marcello Trad novamente (PMDB, 3,90%); 2018 = Renan Contar (PSL, 6,64%); 2022 = Mara Caseiro (PSDB, 3,69%). A ALEMS funciona historicamente como trampolim para cargos maiores.

Reinaldo Azambuja: de deputado estadual a governador de MS

Reinaldo Azambuja obteve a maior votação estadual de 2006 (47.772 votos, 4,34%) pelo PSDB. Em 2010, migrou para o federal (2.º mais votado, 10,3%). Em 2014, elegeu-se governador de MS — o único caso da série em que o 1.º colocado do estadual chegou ao governo estadual dentro do período analisado. Sua trajetória ilustra o modelo de construção de carreira no legislativo sul-mato-grossense: estadual → federal → executivo.

Renan Contar (PSL) em 2018: a maior votação da série — 78.390 votos

A maior votação individual para deputado estadual em todo o período é de Renan Contar (PSL) em 2018: 78.390 votos, representando 6,64% de todos os votos nominais estaduais para deputado estadual. Para comparação: o 2.º colocado (Carlos Alberto Santos, também PSL) obteve 45.903 votos (3,89%). O PSL aproveitou a onda bolsonarista para concentrar votos num candidato com perfil de redes sociais e discurso de renovação — padrão novo para a ALEMS.

Persistência de carreiras: candidatos que resistem por mais de 10 anos

Onevan José de Matos (PSDB): aparece em 2010 (6.º, 3,09%) e em 2018 (5.º, 2,61%). José Roberto Teixeira (DEM): aparece em 2010 (2.º, 3,51%), 2014 (6.º, 2,66%), 2018 (6.º, 2,61%) e 2022 (5.º, PSDB, 2,93%) — 4 eleições seguidas. Jamilson Name (PDT): 2018 (3.º, 2,87%) e 2022 (4.º PSDB, 3,24%). A longevidade no estadual é alta: candidatos com base municipal sólida conseguem resistir a mudanças de conjuntura nacional.

Trajetória eleitoral — Dep. Estaduais recorrentes em MS (2002–2022)

Votos nominais totais por eleição para candidatos recorrentes. Ponto aberto = não eleito; ponto fechado = eleito. Fonte: TSE via electionsBR.

Maior volatilidade que o federal: subidas bruscas e quedas abruptas

Pico de 2010: quem cresceu e por quê

O gráfico de trajetórias mostra que 2010 foi um ano de inflexão para vários candidatos: alguns registraram seu maior pico de votação exatamente nesse ano. O crescimento do eleitorado sul-mato-grossense nesse período — impulsionado pela expansão do agronegócio, das cidades de médio porte e do funcionalismo público estadual — criou condições para que candidatos com bases em municípios em crescimento acelerado obtivessem resultados excepcionais.

2022: duas dinâmicas opostas

O ano de 2022 apresenta a maior bifurcação do período nas trajetórias: alguns candidatos saltam para o maior patamar de votos de toda a carreira (efeito da polarização PT–PL que amplifica a votação de candidatos identificados com os campos) enquanto outros caem acentuadamente — especialmente aqueles do centro sem identidade ideológica clara, que perdem votos para os campos polarizados.

Derrota e retorno: o ciclo de vida político estadual

Múltiplos candidatos alternam pontos abertos (derrota) e fechados (eleição) ao longo das décadas — padrão muito mais comum nos estaduais do que nos federais. Isso sugere que mandatos de deputado estadual em MS são mais disputados e menos garantidos que os federais: a concorrência intrapartidária é mais intensa, e uma mudança de partido ou de reduto pode determinar a diferença entre eleição e derrota.

Composição partidária dos Dep. Estaduais eleitos — MS (2002–2022)

Distribuição de vagas por partido. A ALEMS possui 24 cadeiras. Fonte: TSE via electionsBR.

Duas décadas de hegemonia do PMDB, seguidas pela ascensão do PSDB — e o PMDB some em 2022

2002: PT domina com 6 vagas, ALEMS fragmentada

A composição de 2002 é a mais fragmentada do período: pelo menos 10 partidos diferentes dividem as 24 cadeiras. O PT é o maior partido com 6 vagas — reflexo do "efeito Lula" nas eleições estaduais daquele ano. PSDB, PL, PMDB e PTB completam o quadro. Essa hiperfragmentação torna a ALEMS de 2002 difícil de governar sem coalizões amplas.

2006–2014: hegemonia do PMDB com 6–9 vagas

Ao longo de três legislaturas consecutivas, o PMDB domina a ALEMS com uma bancada que varia de 6 a 9 deputados — chegando a representar quase 38% das cadeiras em 2006. Nenhum outro partido se aproxima dessa dominância na ALEMS no período. O PMDB estadual se beneficia tanto da capilaridade municipal (muitos prefeitos PMDB no interior) quanto da neutralidade ideológica que o permite integrar qualquer coalizão de governo.

2018: crise do PMDB, ascensão do PSDB e entrada do PSL

Em 2018, o MDB (ex-PMDB) mantém 4 vagas mas perde a hegemonia para o PSDB (4 vagas). O PSL de Bolsonaro entra com 2 cadeiras — a estreia do bolsonarismo na ALEMS. PT mantém 3 vagas. A bancada fragmenta-se em mais partidos: Solidariedade, Patriota, PTB e PDT também elegem representantes.

2022: PSDB domina com 5 vagas — e o MDB zera

O resultado mais surpreendente do período: o MDB (ex-PMDB), partido que dominou a ALEMS por 15 anos, elege apenas 1 deputado em 2022 — o Republicanos assume a segunda posição com base sólida. O PSDB consolida 5 vagas, tornando-se o maior partido da casa. O PL (Bolsonaro) elege 3, e o PT mantém 3. A ALEMS de 2022 é a mais polarizada do período: partidos do campo bolsonarista (PL + aliados) e petistas (PT) se confrontam, com PSDB e MDB no centro cada vez mais pressionado.

Base eleitoral dos Dep. Estaduais eleitos — MS (2022)

Mapas individuais: % dos votos de cada candidato eleito por município. Vermelho escuro = município de concentração máxima da votação. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

A ALEMS como mosaico de redutos: cada deputado com seu município-âncora

Um ou dois municípios dominantes por candidato

Os mapas individuais revelam com clareza a lógica territorial da ALEMS: praticamente todos os deputados estaduais eleitos em 2022 têm 1 ou 2 municípios que concentram a esmagadora maioria de seus votos — os chamados "municípios-âncora". Fora desse reduto, a votação do candidato é praticamente residual. Esse padrão é radicalmente diferente dos deputados federais (que têm bases mais espalhadas) e confirma que a ALEMS é, na prática, uma câmara de representantes municipais mais do que estaduais.

Bases não sobrepostas: divisão de território

Os municípios-âncora dos diferentes deputados raramente se sobrepõem: há uma divisão territorial implícita em que cada deputado "pertence" a uma cidade ou microrregião. Essa divisão não é formal, mas emerge da competição eleitoral ao longo do tempo — candidatos aprendem a não disputar diretamente os redutos uns dos outros, mas a construir bases complementares que maximizam a eleição de toda a chapa partidária.

Campo Grande: arena de múltiplos candidatos

A capital aparece como município-âncora em vários mapas simultaneamente — o único município grande o suficiente para sustentar múltiplos deputados estaduais com votações expressivas. Em Campo Grande, a competição intrapartidária é mais intensa e a lógica territorial se dissolve parcialmente em favor de redes de candidatura baseadas em igrejas, sindicatos, associações profissionais e redes sociais digitais.

Qual partido dominou a ALEMS município a município?

O mapa de partido dominante para Deputado Estadual espelha — com defasagem — a dinâmica federal, mas com maior persistência dos partidos tradicionais nos redutos do interior. Leia em conjunto com a composição da ALEMS (H3) e as bases individuais (H4).

Partido dominante por município — Deputados Estaduais MS (2002–2022)

Partido com mais votos nominais em cada município por eleição. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

PSDB domina 52 dos 79 municípios no estadual desde 2018 — menos hegemônico que no federal

2002: o mais fragmentado — 5 partidos competindo por municípios

A eleição estadual de 2002 é a mais plural da série: PDT=16, PT=14, PMDB=12, PSDB=10, PL=9. Nenhum partido ultrapassa 21% dos municípios. O PDT, liderado por nomes como Ary Rigo (3.º mais votado com 2,78%), ainda tem presença territorial significativa no estadual — muito maior do que no federal. A fragmentação reflete a ALEMS como arena mais aberta que a Câmara Federal, com 24 cadeiras e quociente eleitoral menor.

2006–2014: ascensão do PMDB, resistência do PSDB

Em 2006, o PMDB salta para 32 municípios — impulsionado por candidatos como Ari Artuzi (3.36%) e Marcos Trad (3.25%). De 2006 a 2014, o PMDB domina o estadual: 32, 25 e 36 municípios respectivamente. O PSDB cresce progressivamente: de 8 em 2002 para 18 em 2010. O PMDB é mais resistente no estadual que no federal por sua capilaridade nas câmaras municipais e prefeituras do interior — a «máquina municipal» converte-se em votos para a ALEMS.

2018: PSDB passa a dominar com 52 municípios (66% do estado)

A virada do estadual ocorre um ciclo depois do federal: em 2018, PSDB=52, MDB=12, DEM=5. Mas ao contrário do federal (onde o PSDB dominou 78% dos municípios), no estadual o partido chega a 66% — ainda assim a maior concentração da série. Renan Contar (PSL, 1.º mais votado com 6,64%) e Carlos Alberto David dos Santos (PSL, 3,89%) mostram o impacto bolsonarista no estadual: o PSL capturou municípios que nenhum dos dois partidos tradicionais conseguia.

2022: PSDB mantém 52 municípios — MDB resiste com 7

Em 2022, a estrutura de 2018 se consolida: PSDB=52, MDB=7, PP=5, PATRIOTA=3, UNIÃO=3. A diferença para o federal (onde o PSDB também domina 62 municípios) é que no estadual o MDB ainda mantém presença com 7 municípios — reflexo de candidatos como Renato Câmara (4.º mais votado em 2014 com 3,07%) que construíram bases sólidas antes da virada. Os partidos bolsonaristas (Patriota, União Brasil) absorvem uma fatia pequena mas visível do território.

Deputado Estadual

A eleição para a Assembleia Legislativa do MS (ALEMS) disputa 24 cadeiras num único distrito estadual — lógica eleitoral mais personalista que a federal, com candidatos construindo bases em municípios específicos ao longo de múltiplos mandatos.

Margem de vitória — Deputado Estadual em MS, 2002–2022

Margem de vitória (diferença percentual entre o 1.º e o 2.º candidato mais votado em cada município). Fonte: TSE via electionsBR.

Margens maiores que no federal: pico de 14,2% em 2006 e mínimo de 9,0% em 2018

Médias anuais: mais alta que o federal, mesmo padrão de queda

Margem média (estadual vs. federal): 2002 = 11,6% (vs. 11,3%); 2006 = 14,2% (vs. 10,0%) — pico estadual, bem acima do federal; 2010 = 13,9% (vs. 11,7%); 2014 = 10,7% (vs. 8,9%); 2018 = 9,0% (vs. 8,6%) — mínimo estadual; 2022 = 11,5% (vs. 9,8%). O estadual é consistentemente mais «vermelho» que o federal: os candidatos ao ALEMS têm bases municipais mais concentradas do que os deputados federais, refletindo redutos territoriais mais definidos em eleições com menor alcance estadual.

2006: o pico — candidatos do PMDB dominam municípios com força

O pico de margem em 2006 (14,2%) coincide com o domínio do PMDB nos municípios (32 de 78). Candidatos como Reinaldo Azambuja (1.º com 4,34%), Ari Artuzi (3,36%) e Marcos Trad (3,25%) construíram redutos municipais sólidos naquele ciclo — alinhados ao controle do governo estadual pelo PSDB (governador André Puccinelli era PMDB) e a máquina municipal. O mapa de 2006 é o mais vermelho do período estadual.

2018: mínimo de 9,0% — a eleição mais competitiva no interior

A eleição de 2018 é a mais competitiva: margem média de apenas 9,0%, com desvio-padrão de 8,2% (o menor da série). Isso significa que a variação entre municípios foi menor — a competição se distribuiu de forma mais uniforme pelo estado. O surgimento do PSL (Renan Contar com 6,64%) dividiu o eleitorado conservador que anteriormente votava de forma mais concentrada no PSDB ou PMDB.

Municípios com maior margem estadual: bases de candidatos âncora

Os municípios com margens mais altas no estadual são geralmente aqueles com um único candidato com raízes profundas na comunidade local — prefeito eleito, liderança comunitária, grande empregador regional. Diferente do federal (onde os redutos são resultado de campanhas estaduais), no estadual o reduto é construído municipio a município por candidatos que conhecem as lideranças locais pessoalmente.

Concentração de votos (HHI) — Deputado Estadual em MS, 2002–2022

Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI): quanto mais próximo de 1, maior a concentração dos votos em poucos candidatos. Fonte: TSE via electionsBR.

HHI mais alto que no federal, mas com mesma queda: de 0,158 em 2006 para 0,107 em 2022

Médias anuais: pico em 2006, queda consistente depois

HHI médio (estadual): 2002 = 0,145 → 2006 = 0,158 (pico) → 2010 = 0,141 → 2014 = 0,125 → 2018 = 0,105 → 2022 = 0,107. Comparando com o federal: em 2006, o HHI estadual (0,158) é praticamente igual ao federal (0,155), mas as trajetórias divergem: o federal volta a subir em 2010 (outliers de Brasilândia e Nova Andradina), enquanto o estadual cai consistentemente a partir de 2006. A fragmentação no estadual é mais suave e mais progressiva.

Por que o estadual tem HHI ligeiramente maior que o federal?

Com 24 cadeiras na ALEMS (versus 8 federais), o quociente eleitoral estadual é menor — candidatos com votações mais modestas conseguem se eleger. Isso paradoxalmente pode concentrar votos em candidatos específicos em municípios menores: onde um candidato local com presença no município consegue mobilizar uma fatia desproporcional do eleitorado. O federal, com apenas 8 vagas e candidatos mais conhecidos, distribui o voto de forma mais pulverizada.

2018: HHI abaixo de 0,105 — o mais fragmentado antes de 2022

A entrada do PSL no estadual em 2018, com dois candidatos (Renan Contar e Carlos Santos) que obtiveram votações expressivas distribuídas geograficamente, contribuiu para reduzir o HHI em municípios onde anteriormente havia um candidato dominante. Em 2022, o HHI sobe levemente para 0,107 — o PSDB consolida candidatos âncora que reconcentram votos em seus municípios de base.

Mapa de 2022: mais amarelo que 2002 — fragmentação é a tendência secular

Como no federal, o mapa de 2022 é o mais claro (mais fragmentado) do ponto de vista do HHI médio geral. Os municípios com HHI alto (acima de 0,3) são cada vez mais raros e se restringem a casos pontuais de candidatos com bases locais excepcionalmente sólidas — fenômeno residual, não sistemático.

Desigualdade eleitoral (Gini) — Deputado Estadual em MS, 2002–2022

Gini eleitoral por município: quanto mais próximo de 1, mais os votos estão concentrados em um único candidato. Fonte: TSE via electionsBR.

Gini entre 0,846 e 0,862 — levemente maior que no federal, igualmente estável

Gini médio anual: mais alto e mais estável que no federal

Gini médio (estadual): 2002 = 0,846 → 2006 = 0,848 → 2010 = 0,854 → 2014 = 0,862 (pico) → 2018 = 0,853 → 2022 = 0,851. O estadual tem Gini sistematicamente mais alto que o federal (que oscila em torno de 0,83). A razão: com 24 cadeiras e menos candidatos altamente votados per capita, os candidatos que se elegem à ALEMS tendem a concentrar mais votos em relação ao total de candidatos — a curva de Lorenz da distribuição é mais assimétrica.

Pico em 2014: a ALEMS mais desigual eleitoralmente do período

O Gini de 2014 (0,862) é o mais alto da série estadual. Naquele ciclo, o PMDB dominou 36 municípios — os candidatos peemedebistas com base municipal sólida (Marcos Trad, Paulo Corrêa, Renato Câmara, Oswaldo Mochi) concentraram votos de forma mais pronunciada, marginalizando candidatos de outros partidos na maioria dos municípios. É a eleição de maior dominância intramunicípal do período analisado.

Distribuição geográfica: padrão semelhante ao federal

A distinção geográfica noroeste-versus-sul, mencionada em versões anteriores desta análise, não é confirmada pelos dados: o Gini varia de forma relativamente uniforme pelo estado, com outliers pontuais em municípios específicos onde um candidato dominante local concentra votos acima da média. Não há evidência de um padrão regional sistemático no Gini estadual — a lógica é de redutos individuais, não de macrorregiões.

2018–2022: estabilização em nível alto

O leve recuo do Gini de 2014 (0,862) para 2022 (0,851) reflete a entrada de mais candidatos competitivos no mercado estadual — PSL em 2018, Patriota, União Brasil e PP em 2022 — que fragmentam marginalmente a distribuição. Mas o Gini permanece alto: a assimetria na distribuição de votos entre candidatos dentro de cada município é uma característica estrutural das eleições proporcionais brasileiras (Jairo Nicolau, 2006).

Força territorial do 1º colocado — Deputado Estadual em MS, 2002–2022

Percentual de votos recebidos pelo candidato mais votado em cada município. Tons mais escuros indicam maior força territorial do líder local. Fonte: TSE via electionsBR.

Share do 1.º cai de 27,2% para 23,6% — pico em 2006 (29,6%), mínimo em 2018 (22,5%)

Valores médios anuais: pico em 2006, não em 2010 como no federal

Share médio do 1.º colocado (estadual): 2002 = 27,2% → 2006 = 29,6% (pico) → 2010 = 28,3% → 2014 = 25,0% → 2018 = 22,5% (mínimo) → 2022 = 23,6%. Ao contrário do federal (que pica em 2010), o estadual pica em 2006 — reflexo da força do PMDB e PSDB naquele ciclo. Ambos convergem na queda pós-2010: o candidato líder local captura parcela cada vez menor dos votos.

Comparação com o federal: estadual consistentemente mais alto

O share estadual é sempre ligeiramente mais alto que o federal: em 2022, 23,6% vs. 22,1%. A diferença, pequena em termos absolutos, reflete a lógica de câmaras menores: com menos cadeiras para disputar, a eleição para o estadual é menos «diluída» — o candidato que lidera localmente tende a concentrar proporcionalmente mais votos de sua base do que num pleito com 8 vagas mais competitivas.

2006: Reinaldo Azambuja com maior votação — e impacto no share por município

A maior votação para deputado estadual em 2006 foi de Reinaldo Azambuja (PSDB), com 4,34% dos votos estaduais (47.772 votos). Isso significa que Azambuja, ao concentrar votos em municípios específicos do interior, elevou o share médio naqueles municípios de forma visível. Candidatos âncora com visibilidade estadual, mesmo numa eleição proporcional, constroem redutos que aparecem como shares altos nos mapas.

2018–2022: novo piso em torno de 22–24%

A eleição de 2018, a mais competitiva, estabeleceu um novo patamar de shares: média de 22,5%. Em 2022, a leve recuperação para 23,6% reflete a consolidação do PSDB como partido dominante — candidatos mais conhecidos, com bases mais sólidas, conseguem shares levemente maiores. A trajetória de queda secular, contudo, é inequívoca: o share caiu 6 pontos percentuais em 20 anos.

Senador

O Senado é uma eleição majoritária estadual com poucos candidatos competitivos — sua dinâmica eleitoral é radicalmente distinta dos cargos proporcionais. Aqui, os indicadores medem competitividade entre candidatos, não domínio de currais.

Margem de vitória — Senador em MS, 2002–2022

Margem de vitória: diferença percentual entre o 1.º e o 2.º candidato mais votado em cada município. Vermelho = domínio; amarelo/verde = disputa equilibrada. Fonte: TSE via electionsBR.

Oscilações extremas: de 5,0% em 2018 a 51,8% em 2022 — a maior amplitude da série

Valores anuais: a eleição mais volátil de todas

Margem média municipal: 2002 = 10,5% (Ramez Tebet/PMDB, 41,4% dos votos estaduais); 2006 = 26,5% (Marisa Serrano/PSDB, 53,7%); 2010 = 8,9% (Delcídio Amaral/PT, 34,9% — disputa a 4); 2014 = 28,7% (Simone Tebet/PMDB, 52,8%); 2018 = 5,0% (Nelson Trad/PTB, 28,2% — a mais competitiva); 2022 = 51,8% (Tereza Cristina/PP, 61,0% — a mais hegemônica). A amplitude de 46,8 pontos percentuais entre 2018 e 2022 não tem equivalente nas eleições proporcionais.

2006: Marisa Serrano (PSDB) — o mapa mais vermelho do período senatorial

Com 53,7% dos votos totais do estado, Marisa Serrano dominou 69 dos 78 municípios e produziu a maior margem média municipal da série até então (26,5%). A candidatura do PT (Egon Krakhecke, 40,4%) não conseguiu converter a base lulista de 2006 numa candidatura senatorial competitiva — o PT governava o país, mas o eleitorado de MS para o Senado preferiu a candidata incumbente. Em 9 municípios, o PT conseguiu mais votos — todos concentrados no oeste do estado.

2010: a mais competitiva — 4 candidatos viáveis e margem de 8,9%

Em 2010, quatro candidatos obtiveram votações expressivas: Delcídio Amaral (PT, 34,9%), Waldemir Moka (PMDB, 23,0%), Murilo Zauith (DEM, 21,6%), Dagoberto Nogueira (PDT, 20,5%). Com quatro candidatos dividindo 100% dos votos de forma relativamente equitativa, a margem média caiu para 8,9% — o mapa ficou mais laranja e amarelo do que em qualquer outra eleição senatorial. PT dominou 67 dos 79 municípios, mas com shares muito menores que em eleições anteriores.

2018 vs. 2022: de competição máxima a domínio total

2018 foi a eleição mais disputada: Nelson Trad (PTB, 28,2%), Soraya Thronicke (PSL, 24,9%), Waldemir Moka (MDB, 23,8%), Ednei Miglioli (PSDB, 23,1%). Com 4 candidatos e votações entre 23% e 28%, a margem média caiu para apenas 5,0% — o menor valor de toda a série. Em 2022, o cenário inverteu: Tereza Cristina (PP) obteve 61,0% dos votos e venceu em todos os 79 municípios com margem média de 51,8% — a única varredura completa da série.

Concentração de votos (HHI) — Senador em MS, 2002–2022

Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI): mede a estrutura da competição — quanto mais próximo de 1, mais dominante é o candidato líder. Amarelo = disputa fragmentada; vermelho = candidato monopolista. Fonte: TSE via electionsBR.

2018: HHI médio de 0,189 (mais fragmentado) — 2006 e 2022 com HHI acima de 0,496 (mais concentrados)

Valores anuais: alternância entre domínio e fragmentação

HHI médio: 2002 = 0,291 → 2006 = 0,496 → 2010 = 0,279 → 2014 = 0,432 → 2018 = 0,189 → 2022 = 0,506. O padrão alternante é claro: ciclos de domínio (2006, 2014, 2022) com HHI alto alternam com ciclos de fragmentação (2002, 2010, 2018). Isso reflete a natureza majoritária do Senado: a qualidade do candidato e a conjuntura nacional determinam se a eleição será plebiscitária ou competitiva — e o MS segue essa dinâmica de forma muito pronunciada.

2006: HHI = 0,496 — quase monopólio na metade dos municípios

Com HHI médio de 0,496, a eleição senatorial de 2006 foi a mais monopolizada: em muitos municípios, Marisa Serrano obteve proporções tão altas dos votos que o HHI se aproximou de 0,7–0,8. Isso indica que em vários municípios, os votos se concentraram num único candidato ao ponto de a eleição ter o perfil de uma escolha unânime. A candidata do PSDB não enfrentou oposição com capacidade de dividir o eleitorado de forma significativa.

2018: HHI = 0,189 — o mais próximo de uma eleição proporcional

Com quatro candidatos competitivos e HHI médio de apenas 0,189, 2018 foi a eleição senatorial com estrutura de competição mais próxima de uma eleição proporcional. O HHI de 0,189 numa eleição majoritária de 1 vaga indica que os votos se distribuíram de forma surpreendentemente equitativa entre os candidatos. Em termos de teoria econômica de mercados, seria equivalente a um oligopólio com 4 atores de peso semelhante.

2022: HHI = 0,506 — a maior concentração da série

Com Tereza Cristina (PP) vencendo todos os 79 municípios e obtendo 61% dos votos estaduais, o HHI de 2022 (0,506) é o mais alto da série — ligeiramente acima de 2006 (0,496). O segundo colocado, Luiz Mandetta (UNIÃO Brasil), obteve apenas 15,2% — uma diferença de 46 pontos percentuais. Esse nível de dominância não tem precedente nas eleições senatoriais do MS no período analisado.

Desigualdade eleitoral (Gini) — Senador em MS, 2002–2022

Gini eleitoral por município. Para o Senado, Gini alto significa que um candidato dominou localmente; Gini baixo indica disputa equilibrada. Escala diferente dos mapas de deputados. Fonte: TSE via electionsBR.

Gini senatorial: de 0,174 em 2010 (máxima igualdade) a 0,700 em 2006 (máxima concentração)

Por que o Gini senatorial é diferente do proporcional

No Senado, com poucos candidatos (4 a 6 por eleição), o Gini eleitoral mede o quão assimétrica é a distribuição do voto entre eles em cada município. Um Gini de 0,70 (como em 2006) significa que um candidato domina com folga enorme sobre os demais; um Gini de 0,17 (como em 2010) significa que os candidatos recebem proporções relativamente similares de votos. A interpretação é inversa à intuitiva: Gini baixo = competição mais igualitária = mais democrático.

Valores anuais: amplitudes enormes

Gini médio: 2002 = 0,539 → 2006 = 0,700 (máximo, domínio de Marisa Serrano) → 2010 = 0,174 (mínimo, disputa a 4) → 2014 = 0,596 → 2018 = 0,505 → 2022 = 0,627. A amplitude entre 0,174 e 0,700 é sem paralelo nas eleições proporcionais, onde o Gini oscila entre 0,82 e 0,86. Isso confirma que o Senado é a eleição com maior variação na estrutura de competição ao longo do tempo em MS.

2010: Gini de 0,174 — a eleição mais igualitária de todo o período

Com quatro candidatos obtendo entre 20,5% e 34,9% dos votos estaduais (Delcídio 34,9%, Moka 23,0%, Zauith 21,6%, Dagoberto 20,5%), o Gini de 2010 se tornou o mais baixo de toda a série — proporcional ou majoritária. PT dominou 67 dos 79 municípios, mas com shares baixos e margens estreitas. O mapa de 2010 é, nas eleições senatoriais de MS, o único onde a competição se aproxima do ideal de distribuição equitativa de votos.

2022: Gini de 0,627 — 61% para Tereza Cristina, mas não a maior concentração

Apesar de Tereza Cristina ter vencido em todos os municípios com 61% dos votos totais, o Gini de 2022 (0,627) é menor que o de 2006 (0,700). Por quê? Em 2006, o 2.º colocado (Egon Krakhecke, PT) obteve apenas 40,4% — mas o 3.º (PDT) obteve apenas 5,3%. Em 2022, o 2.º (Mandetta, 15,2%), o 3.º (Botelho/PT, 13,1%) e o 4.º (Oliveira/PSD, 10,8%) ficaram mais próximos entre si — o «pelotão de trás» foi mais equilibrado.

Força territorial do 1º colocado — Senador em MS, 2002–2022

Percentual de votos do candidato mais votado em cada município. Azul escuro = candidato líder com share alto (domínio); azul claro = candidatos dividindo o eleitorado. Fonte: TSE via electionsBR.

Share 1.º: de 26,7% em 2018 (mínimo) a 67,6% em 2022 — a maior amplitude da série

Valores anuais: alternância entre domínio e fragmentação refletida no share

Share médio municipal do 1.º colocado: 2002 = 39,3% (Ramez Tebet) → 2006 = 60,2% (Marisa Serrano) → 2010 = 36,4% (Delcídio Amaral) → 2014 = 56,5% (Simone Tebet) → 2018 = 26,7% (Nelson Trad — mínimo histórico) → 2022 = 67,6% (Tereza Cristina — máximo histórico). A amplitude de 40,9 pontos entre 2018 e 2022 confirma a volatilidade extrema das eleições senatoriais em MS.

2018: share de 26,7% — o candidato vencedor obteve apenas 1 em cada 4 votos

Com Nelson Trad obtendo 28,2% dos votos estaduais e a competição distribuída entre quatro candidatos, o share médio por município foi de apenas 26,7% — o menor da série. Em termos práticos, o candidato que venceu em cada município obteve em média menos de 1 em cada 3 votos. Isso é raro numa eleição majoritária e reflete a fragmentação sem precedente daquele ciclo.

2022: share de 67,6% — Tereza Cristina venceu com 2 em cada 3 votos

Com 61,0% dos votos totais estaduais e vitória em todos os 79 municípios, Tereza Cristina obteve share médio municipal de 67,6%. Em municípios específicos do noroeste e centro-oeste do estado (área do agronegócio), o share provavelmente se aproximou de 75–80%. É a maior concentração de voto senatorial da série histórica analisada — impulsionada pela reputação como ministra da Agricultura e pela identidade com o setor produtivo do estado.

Senadores que dominaram: um padrão de trajetória

Os candidatos ao Senado com maior share provêm invariavelmente de carreiras longas em MS: Ramez Tebet (ex-governador), Marisa Serrano (ex-deputada federal e estadual, senadora incumbente), Simone Tebet (ex-prefeita de Três Lagoas, filha de Ramez Tebet), Tereza Cristina (ex-deputada federal, ministra). O Senado de MS é território de lideranças com capital político acumulado em cargos anteriores — confirmando a observação de que o cargo senatorial brasileiro não é campo de estreantes (Neiva & Izumi, 2012).

Quem são os Senadores de MS?

Rankings dos candidatos ao Senado, padrão de candidaturas recorrentes e evolução das bancadas senatoriais de Mato Grosso do Sul em seis eleições.

Candidatos ao Senado mais votados — MS (2002–2022)

Barras cheias = eleitos; barras transparentes = não eleitos. Em alguns anos MS elege 2 senadores, em outros apenas 1. Fonte: TSE via electionsBR.

Votações entre 340 mil e 829 mil — e o perfil de quem chega ao Senado por MS

Escala das votações: de 340 mil a 830 mil votos

As votações para senador pelo MS oscilam: menores votações vitoriosas (Ramez Tebet 2002: 734 mil; Marisa Serrano 2006: 608 mil; Simone Tebet 2014: 640 mil; Tereza Cristina 2022: 829 mil). A maior votação da série é de Tereza Cristina (PP) em 2022: 829.149 votos — 61,0% do total. A menor votação vencedora é de Marisa Serrano (PSDB) em 2006: 607.584 votos — mas isso representava 53,7% do eleitorado, a maior proporção vencedora.

2010: a mais disputada — quatro candidatos acima de 400 mil

Em 2010, a eleição mais competitiva da série produziu quatro candidatos acima de 400 mil votos: Delcídio Amaral (PT) = 826.848 (34,9%), Waldemir Moka (PMDB) = 544.933 (23,0%), Murilo Zauith (DEM) = 512.119 (21,6%), Dagoberto Nogueira (PDT) = 485.490 (20,5%). É a eleição onde mais votos foram «competitivos» — todos os quatro candidatos principais tinham chance real de vitória até os momentos finais.

2018: a mais fragmentada — quatro candidatos entre 24% e 28%

Nelson Trad Filho (PTB) = 424.085 (28,2%), Soraya Thronicke (PSL) = 373.712 (24,9%), Waldemir Moka (MDB) = 357.427 (23,8%), Ednei Miglioli (PSDB) = 347.861 (23,1%). É a eleição mais equilibrada da série: diferença de apenas 5,1 pontos percentuais entre o 1.º e o 4.º colocado. Soraya Thronicke, sem base política prévia em MS, obteve o 2.º lugar alavancada pela onda bolsonarista — sua votação foi concentrada em municípios urbanos conservadores.

2022: Tereza Cristina com 829 mil (61%) — o maior placar da série

Com 829.149 votos (61,0%), Tereza Cristina (PP) obteve a maior votação e a maior proporção vencedora da série histórica. Luiz Mandetta (UNIÃO Brasil, ex-ministro da Saúde) ficou em 2.º com 206.093 (15,2%). A diferença de 45,8 pontos percentuais entre 1.º e 2.º é também a maior da série. O 3.º (Tiago Botelho/PT, 13,1%) e 4.º (Odilon de Oliveira/PSD, 10,8%) ficaram à margem. Uma varredura eleitoral sem precedente na história senatorial do MS.

Trajetória eleitoral — Candidatos ao Senado recorrentes em MS (2002–2022)

Votos nominais totais por eleição para candidatos que disputaram o Senado em 2 ou mais eleições. Fonte: TSE via electionsBR.

Quase vazio: o Senado não perdoa derrotas, e raramente há segunda chance

Por que o gráfico tem tão poucos candidatos

O gráfico de trajetórias senatoriais é praticamente vazio em comparação com os equivalentes para deputados — e isso, por si só, é o dado mais revelador. Na disputa para o Senado em MS, quase não há candidatos que tentam a eleição mais de uma vez. A estrutura do cargo explica: o mandato de 8 anos significa que o candidato que perde em determinado ano teria que esperar 4 ou 8 anos para tentar novamente — um horizonte longo demais para sustentar uma candidatura viável.

Carlos Antonio Mene... (PV): o único recorrente visível

O único candidato que aparece com duas tentativas (2002 e 2006) é Carlos Antonio Meneses (PV), com votação modesta em ambos os casos e sem sucesso. Sua queda de votos entre 2002 (~40 mil) e 2006 (~6 mil) ilustra a dificuldade de sustentar candidaturas menores ao Senado: sem máquina partidária estadual e sem uma janela de oportunidade eleitoral clara, candidatos de partidos médios progressivamente perdem visibilidade em eleições majoritárias dominadas por dois ou três candidatos fortes.

O Senado como arena de carreiras únicas

A ausência de candidatos recorrentes bem-sucedidos confirma que o Senado em MS funciona como arena de carreira única: candidatos bem posicionados politicamente — com capital político, visibilidade e máquina — se elegem na primeira tentativa. Os que não se elegem tipicamente não retornam à disputa senatorial, migrando para outros cargos (câmara federal, secretaria de estado, cargos técnicos) ou encerrando suas carreiras políticas. Isso torna a disputa senatorial extremamente seletiva antes mesmo do dia da eleição.

Senadores eleitos por partido — MS (2002–2022)

Distribuição de vagas por partido por eleição. MS pode eleger 1 ou 2 senadores por eleição, a depender do ciclo constitucional. Fonte: TSE via electionsBR.

PT domina o Senado por 16 anos; PP e UNIÃO chegam em 2022

2002 e 2010: anos de 1 vaga — PMDB e PT

Nas eleições com apenas 1 vaga senatorial, MS elegeu o PMDB (Ramez Tabet, 2002) e o PT (Delcídio do Amaral, 2010). Esse padrão mostra que as duas maiores forças eleitorais do estado no período dividiam as eleições de 1 vaga entre si — o PMDB e o PT se revezavam como favoritos dependendo do ciclo político nacional.

2006 e 2014: anos de 2 vagas — PT sempre presente

Nas eleições com 2 vagas, o PT sempre elegeu pelo menos 1 senador: Egon Krakhecke em 2006 (junto ao PSDB de Marisa Joaquina) e Ricardo Ayache em 2014 (junto ao PMDB de Simone Tebet). O PT manteve presença contínua no Senado de MS de 2006 a 2018 — quatro eleições consecutivas com pelo menos 1 senador petista, mesmo quando o partido enfrentava dificuldades crescentes nas eleições proporcionais.

2018: primeiro ciclo sem o PT no Senado

A eleição de Nelson Trad Filho (PTB) como único senador de 2018 marca o primeiro ciclo pós-2002 sem representação petista no Senado de MS — consequência direta do colapso eleitoral do PT após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula. O PTB emerge como porto seguro do eleitorado de centro que migrou do PMDB mas ainda não tinha se integrado ao bolsonarismo em formação.

2022: PP e UNIÃO — a bancada da direita e da centro-direita

A eleição de Tereza Cristina (PP) e Luiz Henrique Mandetta (UNIÃO Brasil) configura a bancada senatorial mais à direita da história recente de MS. O PP é o partido de Centrão historicamente aliado ao agronegócio; o UNIÃO Brasil é a fusão do DEM com o PSL (partido de Bolsonaro na eleição de 2018). Com mandatos até 2030 e 2030 respectivamente, ambos os senadores definirão a representação senatorial de MS por ao menos uma legislatura completa.

Senado: varredura de Tereza Cristina

Base eleitoral dos Senadores eleitos — MS (2022)

Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr. Cor indica o candidato eleito com mais votos em cada município.

Uma vitória sem territórios de oposição: o caso mais raro em eleições senatoriais

Cobertura territorial de 100%

O mapa é monocolorido: Tereza Cristina Corrêa (PP) venceu em todos os 79 municípios do Mato Grosso do Sul na eleição senatorial de 2022. Trata-se de um fenômeno raro nas eleições brasileiras — uma varredura territorial completa sem que nenhum adversário obtivesse mais votos que ela em sequer um município.

Contexto político

Tereza Cristina foi Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no governo Bolsonaro (2019–2022), cargo que lhe conferiu enorme visibilidade no estado — onde o agronegócio representa a principal atividade econômica. Sua candidatura ao Senado em 2022 mobilizou o eleitorado rural e capitaliza o capital político acumulado no ministério, resultando em uma votação expressiva e geograficamente homogênea.

Implicações analíticas

A varredura completa contrasta com o padrão histórico do Senado sul-mato-grossense, que costuma apresentar eleições mais disputadas (como visto no mapa do Gini 2010). Ela sugere que a identidade agropecuária do estado e a polarização política de 2022 criaram condições excepcionais: o eleitorado de MS se comportou de forma incomumente homogênea, independentemente das diferenças microrregionais de renda, urbanização ou composição partidária das câmaras municipais.

Comparação com eleições anteriores

Senadores eleitos anteriormente por MS — como Pedro Chaves, Simone Tebet e Waldemir Moka — também obtiveram vitórias expressivas, mas raramente com cobertura territorial tão uniforme. O resultado de 2022 coloca Tereza Cristina em posição de influência política singular no estado, com mandato estendido até 2030.

A geografia senatorial: mais volátil, mais dependente da conjuntura

No Senado, o partido dominante por município muda mais radicalmente de eleição para eleição — reflexo do caráter majoritário da disputa, em que um único candidato arrasta todo o território. Leia em conjunto com F1–F4 (dispersão) e I1–I3 (ranking e composição).

Partido dominante por município — Senadores MS (2002–2022)

Partido do candidato mais votado em cada município por eleição. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

Uma varrição por eleição: PMDB → PSDB → PT → PMDB → disputada → PP — cada ciclo com lógica própria

2002: PMDB varre 69 dos 77 municípios — Ramez Tebet com 41,4%

A primeira eleição da série (vagas de 1994 + 1998 sendo renovadas) já mostra o padrão típico: um candidato domina o mapa inteiro. Ramez Tebet (PMDB) vence em 69 de 77 municípios com 41,4% dos votos — o PT fica com 6 municípios (28,0%, Delcídio Amaral) e o PST com 2 (Pedro Pedrossian, 23,9%). O PMDB governava o estado, e a máquina municipal se mobilizou de forma eficaz para a candidatura senatorial.

2006 e 2014: PSDB e PMDB com varreduras de 69 e 71 municípios

Em 2006: PSDB domina 69 de 78 municípios — Marisa Serrano com 53,7%. PT fica com apenas 9 municípios (Egon Krakhecke, 40,4%). Em 2014: PMDB varre 71 de 79 municípios — Simone Tebet com 52,8%. PT fica com 7 (Ricardo Ayache, 23,2%). Nas eleições com candidatos de alta visibilidade e partido governista alinhado, a varredura é a regra — não a exceção. O mapa fica essencialmente monocromático.

2010: PT em 67 municípios, mas disputa a 4 — o único mapa verdadeiramente colorido

A exceção é 2010: PT domina 67 municípios, mas com Delcídio Amaral obtendo apenas 34,9%. PMDB (Moka, 23,0%), DEM (Zauith, 21,6%) e PDT (Dagoberto, 20,5%) ficam com o restante. O mapa de 2010 é o único com múltiplas cores expressivas — cada candidato tem seu território. Dagoberto vence no município de Campo Grande (onde tem base mais sólida como deputado federal); Zauith domina no leste. PDT vence em 1 município.

2022: PP em todos os 79 municípios — a varredura mais completa da série

Em 2022, Tereza Cristina (PP) vence em todos os 79 municípios sem exceção — a única varredura completa de toda a série. O segundo colocado, Luiz Mandetta (UNIÃO Brasil, ex-ministro da Saúde), obteve 15,2%. A vitória de Tereza Cristina reflete a identificação do eleitorado do agronegócio — que permeia todo o estado, não apenas uma região — com sua trajetória como ministra da Agricultura de Bolsonaro. 2018 foi a única eleição disputada — PTB (33), MDB (17), PT (14), PSDB (12) municípios.

Ideologia, deriva e alternância territorial

Quatro visualizações que respondem a uma pergunta central: como a política de MS se deslocou ideologicamente ao longo de duas décadas? E onde esse deslocamento foi mais intenso ou mais resistente? Os gráficos desta seção falam com os mapas de partido dominante e com os índices F2 (HHI) e F3 (Gini).

Posicionamento ideológico e dominância eleitoral — Dep. Federais MS (2002–2022)

Tamanho da bolha = número de municípios onde o partido obteve mais votos nominais. Escores ideológicos: Power & Zucco (2009), DALP. Fonte: TSE via electionsBR.

A virada entre 2014 e 2018: de 37 municípios para esquerda para 64 para centro-direita

Como ler o gráfico: tamanho = municípios dominados, posição = ideologia

O bubble chart posiciona cada partido no eixo ideológico (1–10, baseado em Power & Zucco, 2009) e usa o tamanho da bolha para representar o número de municípios onde o partido teve o candidato a deputado federal mais votado. A leitura correta: o que mudou não foi a posição dos partidos no eixo (o PT continua sendo de esquerda), mas sim quais partidos dominam o maior número de municípios.

2002–2014: oscilação entre esquerda e centro

Municípios por bloco ideológico (deputado federal): 2002: Esq=23, Centro=36, Dir=3; 2006: Esq=43, Centro=28, Dir=1 (máximo da esquerda); 2010: Esq=27, Centro=30, CD=9, Dir=3; 2014: Esq=40, Centro=37, CD=2, Dir=0. O período 2002–2014 mostra um equilíbrio dinâmico entre partidos de centro (PMDB) e de esquerda (PT, PDT), com a direita e centro-direita nunca passando de 11 municípios. O centro de gravidade oscila entre 4,37 e 5,53 — nunca ultrapassando o ponto médio (5,0) de forma expressiva.

A virada de 2018: de CD=2 para CD=64 — o maior salto da série

Em 2018: CD=64, Dir=8, Esq=2, CE=1, Centro=3. Em 2022: CD=62, Dir=9, Esq=5, Centro=1. A mudança entre 2014 e 2018 é a maior de toda a série: o bloco centro-direita passa de 2 para 64 municípios (PSDB com 62, DEM com 8). O PT despenca de 37 para 2 municípios. O centro de gravidade salta de 4,53 (2014) para 6,45 (2018) — uma deriva de +1,92 pontos em apenas 4 anos. Isso não tem precedente em séries eleitorais estaduais brasileiras para o mesmo cargo.

A bolha do PSDB em 2018–2022 é a maior do período

Em 2018 e 2022, o PSDB domina 62 municípios — a maior bolha do gráfico em toda a série histórica. Para efeito de comparação: a maior bolha anterior era o PT em 2006 (36 municípios). O PSDB de MS, sob liderança de Reinaldo Azambuja (governador 2014–2022), construiu uma máquina eleitoral que traduziu o alinhamento conservador do eleitorado sul-mato-grossense — predominantemente do agronegócio — em domínio territorial quase absoluto.

Centro de gravidade ideológico — Dep. Federais MS (2002–2022)

Média ponderada dos escores ideológicos dos partidos dominantes por município. Linha sólida = peso por municípios; tracejada = peso por votos. Escores: Power & Zucco (2009). Fonte: TSE via electionsBR.

Salto de +1,92 pontos entre 2014 e 2018: a maior deriva ideológica da série

Valores do centro de gravidade ideológico por ano

Centro de gravidade ponderado por municípios / por votos: 2002 = 4,97 / 5,53; 2006 = 4,37 / 4,89 (mais à esquerda — PT liderava municípios); 2010 = 4,92 / 5,33 (volta ao centro); 2014 = 4,53 / 4,95 (equilíbrio PT=37 e PMDB=37); 2018 = 6,45 / 6,53 (salto para direita); 2022 = 6,46 / 7,05 (mantém direita, votos ainda mais à direita). Escores baseados em Power & Zucco (2009), amplamente utilizados na literatura de comportamento legislativo brasileiro.

2006: o ponto mais à esquerda — PT domina municípios

O menor CG da série é em 2006 (4,37 por municípios), quando o PT liderou em 36 dos 78 municípios — o máximo histórico. Com o PT (escore 3,0) dominando quase metade do mapa, o CG se puxa para baixo. O eleitorado de 2006 estava no auge do ciclo lulista, e o alinhamento ideológico do voto para deputado federal refletia essa tendência. A linha por votos é sempre ligeiramente mais alta (mais à direita) que a de municípios, porque municípios maiores, como Campo Grande, têm candidatos mais centrados.

2014: o último equilíbrio — PT=37 e PMDB=37 municípios

Em 2014, com PT e PMDB empatados em 37 municípios cada, o CG ficou em 4,53 (por municípios) — o patamar de equilíbrio. Este é o último ano antes da virada. O PT ainda possuía candidatos como José Orcírio Miranda dos Santos (Nelsinho, 1.º mais votado com 13,7% dos votos estaduais) e Vander Loubet (5.º, 5,9%) — uma bancada federal sólida que se refletia no território.

2018–2022: +1,92 pontos e consolidação à direita

A deriva entre 2014 e 2018 (+1,92 pontos por municípios) é a maior de qualquer intervalo da série. Em 2022, o CG por votos chega a 7,05 — indicando que os partidos vencedores em votos estão posicionados ainda mais à direita que a simples contagem de municípios sugere. Isso ocorre porque em 2022 o PL (escore 8,5 — mais à direita) aparece com 6 municípios, puxando o CG por votos acima do CG por municípios. A política eleitoral de MS deslocou-se estruturalmente para a direita.

Alternância partidária por município — Dep. Federais MS (2002–2022)

Número de partidos distintos que foram o mais votado em cada município ao longo do período 2002–2022. Fonte: TSE via electionsBR | Shapefile: geobr.

46% dos municípios nunca alternaram o partido dominante em 20 anos — e só 2 têm alta rotatividade

Distribuição: 36 hegemônicos, 21 bipartidários, 34 tripartidários

De 79 municípios com dados completos, o número de partidos distintos que dominaram ao longo de 2002–2022 é: 1 partido = 36 municípios (46%); 2 partidos = 21 municípios (27%); 3 partidos = 34 municípios (43%); 4 partidos = 22 municípios (28%); 5 partidos = 2 municípios (3%). Apenas Nova Andradina e Sonora tiveram 5 partidos diferentes liderando nos seis ciclos eleitorais — os municípios com maior competição territorial aberta do estado.

36 municípios hegemônicos: o mesmo partido dominou nas 6 eleições

Entre os 36 municípios onde um único partido teve o candidato a deputado federal mais votado em todas as seis eleições de 2002 a 2022, destacam-se: Água Clara, Amambai, Anastácio, Anaurilândia, Bataguassu, Brasilândia, Caarapó, Camapuã, Cassilândia, Chapádão do Sul, Corumbá, Dois Irmãos do Buriti, Fátima do Sul, Glória de Dourados, Inocência, Itaporã, Itaquiraí, Japorã, Jateí, Ladário, Laguna Carapã, Naviraí e outros. A hegemonia reflete candidatos com vínculos profundos nas comunidades locais — não necessariamente o mesmo partido nacional, mas o mesmo campo ideológico.

Campo Grande e Dourados: entre os mais rotativos

Os municípios maiores — Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Corumbá — apresentam escores mais altos de rotatividade (3–4 partidos), confirmando que os mercados eleitorais urbanos são mais abertos. A lógica territorial se dissolve nas cidades: o eleitor urbano vota em candidatos de campos distintos dependendo do ciclo. Campo Grande, a arena eleitoral mais fragmentada do estado (share do 1.º abaixo de 15% em 2022), reflete essa multiplicidade.

Nova Andradina e Sonora: as únicas arenas com 5 partidos

Apenas dois municípios apresentaram alternância máxima — 5 partidos diferentes liderando em 6 eleições. Nova Andradina (leste do estado, região de fronteira agrícola) e Sonora (norte, área pecuária) são municípios de perfil econômico dinâmico, com população variada e sem candidato local hegemônico consolidado. A alternância não reflete instabilidade política — é resultado de uma arena eleitoral genuinamente competitiva onde cada ciclo traz um candidato diferente em posição de liderança.

Inclinação ideológica por município — Dep. Federais MS (2002–2022)

Escore ideológico do partido dominante em cada município por eleição. Vermelho = esquerda · cinza = centro · azul = direita. Escores: Power & Zucco (2009). Fonte: TSE via electionsBR.

2002–2014: oscilação vermelho-cinza; 2018–2022: azul em 78% do território

O que o mapa mostra: escore médio do partido dominante por município/ano

O mapa de inclinação ideológica atribui a cada município, em cada eleição, o escore do partido que teve o candidato a deputado federal mais votado. Vermelho = esquerda (PT, escore 3,0); cinza = centro (PMDB, escore 6,0); azul = direita (DEM, PSDB, PL). A escala vai de 2 a 9, com ponto médio em 5 (linha tracejada). O mapa não mostra o candidato individual — mostra a inclinação ideológica do partido dominante em cada município.

2002 e 2010: mapa predominantemente cinza-avermelhado

Em 2002 e 2010, o mapa mistura vermelho (municípios PT) e cinza (municípios PMDB) com alguns pontos azuis. O CG de 4,97 (2002) e 4,92 (2010) confirma o equilíbrio visual — metade do mapa para cada lado. O interior sul e o oeste tendem ao vermelho; o centro-norte ao cinza. Não há região claramente azul antes de 2018.

2006 e 2014: os dois picos de vermelho

Em 2006 (PT=36 municípios, CG=4,37) e 2014 (PT=37 municípios, CG=4,53), o mapa tem a maior área vermelha da série. Em 2006, o PT dominou quase metade do território — resultado excepcional numa eleição proporcional. Em 2014, o empate PT=PMDB (37 cada) produz um mapa mosqueado, com municípios vermelhos e cinzas alternados, sem padrão geográfico claro. A fronteira oeste e o interior norte são consistentemente os mais vermelhos.

2018 e 2022: azul em 78% do território — a maior transformação visual

A mudança de 2014 para 2018 é a maior transformação visual da série: de um mapa misturado (vermelho-cinza) para um mapa dominado pelo azul do PSDB (escore 6,5). Em 2018 e 2022, 62 dos 79 municípios ficam com escores acima de 6 (centro-direita ou direita). Em 2022, o PL (escore 8,5) aparece em 6 municípios — as manchas azuis mais escuras do período. O território sul-mato-grossense se tornou, do ponto de vista eleitoral para Câmara Federal, predominantemente de centro-direita a direita.

Eleições Municipais na Capital

A disputa pela Câmara Municipal de Campo Grande revela com clareza como a hegemonia partidária se desloca ao longo do tempo — e como a capital se tornou o principal laboratório das transformações do sistema partidário de MS.

Votação dos principais partidos — Vereadores Campo Grande (2004–2024)

Percentual dos votos nominais por partido, eleições municipais de Campo Grande. Top 8 partidos por eleição. Fonte: TSE via electionsBR.

Do bipartidarismo PMDB-PT (2004) à fragmentação de quatro forças (2024)

2004: PMDB com 24,5% e PT com 18,4% — campo grande bipartidária

Na eleição de 2004, o PMDB concentra 24,5% de todos os votos nominais para vereador em Campo Grande — um percentual excepcional numa eleição proporcional com dezenas de candidatos. O PT aparece em segundo com 18,4%. Juntos, os dois partidos somam 43% dos votos, configurando um cenário verdadeiramente bipolar. O PSDB (8,7%), PFL (6,0%) e PT do B (5,8%) ficam muito abaixo. A prefeitura de Nelson Trad (PMDB, 2000–2004) havia consolidado a máquina municipal.

2008–2012: fragmentação cresce, PMDB resiste

Em 2008: PMDB=15,5%, seguido de PT=9,0%, PSDB=9,0%, PPS=8,8% e PP=8,8% — a primeira grande dispersão. Em 2012: PMDB=17,4%, PT=9,4%, PT do B=8,5%, PSDB=8,4%. O PMDB consegue se manter como maior partido por quatro eleições consecutivas (2004–2012), mas sua vantagem sobre o segundo colocado encolhe de 6 pontos para 8 pontos. A gestão de Nélson Trad Filho (2005–2010) e depois Alcides Bernal/Marquinhos Trad sustentaram a máquina peemedebista.

2016: PSDB ultrapassa PMDB pela primeira vez — e o PSL surge

Em 2016, o PSDB passa a liderar com 15,3% — primeira vez sem PMDB no topo desde 2000. PP (7,6%), PDT (6,9%), PMDB (6,0%) e SD (5,9%) completam o top 5. A eleição de 2016 é o primeiro sinal da virada conservadora que explodirá em 2018: o eleitorado de Campo Grande começa a se deslocar de um PMDB desgastado para partidos como PSDB e (em 2018 nacional) PSL.

2020 e 2024: extrema fragmentação, sem partido acima de 14%

Em 2020: PSD=13,6%, PSDB=10,1%, PODE=7,8%, MDB=7,6%, PATRIOTA=7,2% — cinco partidos com votações próximas, nenhum dominante. Em 2024: PP=13,4%, PSDB=13,2%, UNIÃO=8,8%, AVANTE=8,1%, PL=8,1% — ainda mais disperso. A fragmentação extrema atual é produto da proliferação de partidos pós-reforma, do surgimento de candidaturas via redes sociais e do fim das coligações. O mapa mostra que nenhum partido consegue hoje o que o PMDB fez em 2004: concentrar ¼ dos votos em eleição proporcional municipal.

Trajetória eleitoral — Top 5 partidos · Vereadores Campo Grande

Percentual dos votos por partido ao longo das eleições municipais. Fonte: TSE via electionsBR.

PP cresce de 8,8% para 13,4%; PMDB despenca de 24,5% para 0%; PSDB resiste acima de 10%

PP: trajetória ascendente — o grande vencedor do período recente

O PP (Progressistas) apresenta a trajetória mais clara de crescimento no gráfico: 2008 ≈ 8,8% → 2012 ≈ ? → 2016 = 7,6% → 2020 ≈ ? → 2024 = 13,4%. O crescimento do PP em Campo Grande é explicado pela aliança com a prefeitura de Marquinhos Trad (PMDB→PSD→MDB), pela incorporação de vereadores de outros partidos e pela vinculação do PP a figuras do mercado imobiliário e do setor de serviços da capital. Em 2024, o PP ultrapassou o PSDB pela primeira vez.

PMDB/MDB: a curva da decadência — de 24,5% a menos de 8%

A linha do PMDB (depois MDB) é a de maior queda da série: de 24,5% em 2004, o partido caiu progressivamente — 15,5% em 2008, 17,4% em 2012, 6,0% em 2016. Como MDB, chegou a 7,6% em 2020. É a história da desconstrução de uma hegemonia: o PMDB de Nelson Trad Filho perdeu o controle da prefeitura em 2012, e a máquina municipal que convertia cargos em votos foi desmantelada. Em 2024, o MDB sequer aparece no top 5.

PSDB: resistência em torno de 10–15%

O PSDB mantém performance estável no topo: 8,7% em 2004, 9,0% em 2008, 8,4% em 2012, 15,3% em 2016 (pico), 10,1% em 2020, 13,2% em 2024. A robustez do PSDB em Campo Grande é sustentada pela aliança com o governo estadual de Azambuja (2014–2022) e pela presença de candidatos a vereador vinculados a redes comunitárias e religiosas. O partido nunca despencou abaixo de 8% — ao contrário do PMDB.

PT: declínio após 2004, resiliência nos 6–9%

O PT começou bem em 2004 (18,4%, 2.º colocado) e foi declinando progressivamente: 9,0% em 2008, 9,4% em 2012, e depois sumiu do top 5 em 2016 e 2020. Em Campo Grande, o PT perdeu sua base urbana de classe média e trabalhadores formais — migrando para um eleitorado mais concentrado em periferias e movimentos sociais. A eleição de 2022 (com Camila Bazachi, deputada federal) não se reflete na câmara municipal de 2020/2024, mostrando a desconexão entre os dois eleitorados.

Volume de votos por zona eleitoral — Vereadores Campo Grande (2000–2024)

Total de votos nominais por zona eleitoral (6 zonas em Campo Grande) por eleição. Escala: amarelo = poucos votos; preto = muitos votos. Fonte: TSE via electionsBR.

Partido dominante por zona eleitoral — Vereadores Campo Grande (2000–2024)

Partido com mais votos nominais em cada zona por eleição. As 6 zonas de Campo Grande: 8, 35, 36, 44, 53 e 54. Fonte: TSE via electionsBR.

Crescimento uniforme, com exceção da zona 54 — a menos populosa

2000: dados ausentes em zonas 53 e 54

O mapa de 2000 mostra linha em branco-amarelo claro nas zonas 53 e 54 — provavelmente zonas criadas após 2000, ou com dados não disponíveis para esse ciclo. As demais zonas já existiam e tinham eleitorados registrados, embora ainda menores que nos anos seguintes.

Crescimento consistente de 2004 a 2024

O heatmap escurece progressivamente ao longo do tempo em todas as zonas — confirmando o crescimento do eleitorado à medida que Campo Grande expande sua população. Em 2024, as zonas 8, 35, 53 chegam ao preto-escuro (80 mil+ votos cada), enquanto a zona 54 permanece relativamente mais clara (eleitorado menor), possivelmente porque cobre uma área de perfil socioeconômico diferente ou com menor densidade eleitoral.

Três hegemonias consecutivas e a primeira divisão em 2024

2004–2012: PMDB domina TODAS as 6 zonas por 3 eleições

O gráfico é de uma clareza impressionante: durante três eleições consecutivas (2004, 2008 e 2012), o PMDB foi o partido mais votado em cada uma das 6 zonas eleitorais de Campo Grande, sem exceção. Essa hegemonia uniforme durante 12 anos é resultado da combinação entre controle da prefeitura (prefeito Nelson Trad, PMDB, 2005–2012), máquina de indicação de cargos e a força de candidaturas âncora do partido.

2016: PSDB substitui o PMDB em todas as zonas simultaneamente

Em 2016, o PSDB assume a posição dominante em todas as 6 zonas — de forma tão uniforme quanto o PMDB havia feito antes. Isso não significa que o PSDB substituiu os eleitores do PMDB; significa que a máquina partidária da prefeitura (sob Marquinhos Trad, que iniciou como PMDB e depois migrou para o PSDB) se deslocou inteiramente, arrastando os candidatos mais competitivos para a nova legenda.

2020: PSD domina tudo; 2024: divisão PSDB vs. PP

Em 2020, o PSD (para onde Marquinhos Trad migrou) repete a façanha de dominar todas as 6 zonas. Em 2024, pela primeira vez em duas décadas, o mapa se divide: PSDB vence nas zonas 8, 35 e 36 (regiões norte/centro da cidade), enquanto o PP domina as zonas 44, 53 e 54 (regiões sul/leste). Esse é o primeiro sinal de fragmentação territorial real dentro da capital — dois partidos dividindo a cidade, possivelmente reflexo da disputa entre o legado Marquinhos/PP e a renovação via PSDB em certas regiões.

Como os votos se distribuem pelas zonas eleitorais?

As zonas eleitorais são a unidade de coleta abaixo do município. Analisar os votos por zona permite entender como os candidatos concentram ou dispersam sua força dentro de municípios maiores — complementando os mapas municipais com um nível de granularidade maior.

Concentração de votos por zona eleitoral — MS (candidatos mais votados)

HHI por zona eleitoral para os candidatos mais votados, separado por cargo e ano. Maior HHI = candidato mais dominante naquela zona. Fonte: TSE via electionsBR.

Dep. Federal: HHI por zona cai de 0,14 para 0,08 em 20 anos; Senado: de 0,50 para 0,19 e voltando

Lógica do gráfico: HHI por zona vs. HHI por município

O HHI por zona eleitoral mede a concentração dos candidatos mais votados (top 8 para Federal, top 24 para Estadual, top 2 para Senado) dentro de cada zona. Uma zona com HHI alto significa que 1–2 candidatos monopolizaram os votos naquela zona entre os finalistas. HHI baixo significa que os votos se distribuíram de forma equitativa entre os candidatos top de cada cargo.

Dep. Federal: desconcentração consistente em todas as zonas

Para Dep. Federal, o HHI médio por zona em 2002 estava entre 0,08 e 0,36 (com zonas 7, 9, 13, 16, 40 e 42 apresentando os valores mais altos). Em 2022, a maioria das zonas está abaixo de 0,10. A queda é visível em todas as zonas — as barras azuis (2022) são consistentemente menores que as de 2002 para o mesmo número de zona. As zonas de Campo Grande (8, 35, 36, 44 — com eleitorado maior) têm os HHIs mais baixos de todos.

Senador: HHI oscila dramaticamente — espelho das disputas

Para Senador, o HHI por zona reflete fielmente as disputas estaduais: em 2006 (Marisa Serrano/PSDB, domínio), o HHI por zona é alto em praticamente todas; em 2010 (4 candidatos) e 2018 (4 candidatos), o HHI por zona despenca; em 2022 (Tereza Cristina PP, domínio), volta a subir. O padrão confirma que a distribuição geográfica do voto senatorial é uniforme no estado — não há zonas que «resistem» ao candidato dominante.

Dep. Estadual: maior heterogeneidade entre zonas

O HHI para Dep. Estadual varia mais entre zonas do que para os outros cargos. Zonas maiores (com mais candidatos competitivos repartindo votos) têm HHI menor; zonas menores do interior têm HHI mais alto. Isso reflete a lógica do reduto estadual: candidatos à ALEMS têm bases municipais mais específicas do que os federais — a zona 13, por exemplo, cobre municípios com candidatos locais de forte presença.

Distribuição de votos por zona — candidatos mais votados (MS)

Cada curva = distribuição dos votos dos top candidatos entre as zonas eleitorais. Linha central = mediana. Separado por cargo. Fonte: TSE via electionsBR.

Federal: curvas largas e bimodais; Estadual: cauda longa de redutos; Senador: curvas estreitas e altas

O que o ridge plot mostra: distribuição de votos por zona entre os candidatos mais votados

Cada curva representa a distribuição dos votos por zona eleitoral entre os candidatos mais votados de cada cargo, para um dado ano. Curva larga e plana = candidatos com votações distribuídas de forma relativamente uniforme pelas zonas. Curva estreita e alta = candidatos com votações concentradas em poucas zonas. A linha vertical = mediana da distribuição entre zonas.

Dep. Federal: curvas progressivamente mais largas — homogeneização territorial

Para Dep. Federal, as curvas evoluem de mais estreitas (2002–2006) para mais largas (2018–2022), indicando que os candidatos mais votados em 2022 distribuem seus votos de forma mais uniforme entre as zonas eleitorais do que em 2002. Isso reflete a ascensão de candidatos com apelo estadual (como Humberto Rezende e Geraldo Resende do PSDB, que obtiveram votos em zonas urbanas e rurais indistintamente) em detrimento de candidatos de reduto municipal específico.

Dep. Estadual: cauda longa à direita — o reduto em números

Para Dep. Estadual, as curvas apresentam cauda longa à direita: a maioria das zonas tem votação baixa, mas algumas zonas específicas apresentam votações excepcionalmente altas — o reduto eleitoral do candidato. Cada candidato à ALEMS tem um município ou conjunto de zonas onde concentra votos, e essa concentração é visível como a cauda da distribuição. A cauda não diminui ao longo do tempo: o reduto estadual é mais persistente do que o federal.

Senador: curvas estreitas e com pico alto — votação homogênea pelo estado

Para Senador, as curvas são estreitas e com pico alto, indicando que o candidato mais votado distribui seus votos de forma muito similar entre todas as zonas eleitorais — sem reduto específico. Isso confirma que eleições senatoriais em MS são de apelo estadual amplo: o candidato vencedor não tem um território de concentração, tem uma base distribuída de forma relativamente uniforme. A exceção são os anos de competição (2010 e 2018), onde as curvas ficam mais dispersas.

Dispersão de votos por zona — Dep. Federais mais votados (MS)

Boxplot dos votos por zona para os top Dep. Federais de MS, por ano e por partido. Cada ponto = votos em uma zona eleitoral. Fonte: TSE via electionsBR.

Candidatos com caixas altas têm base urbana; candidatos com caixas largas têm base distribuída

O que o boxplot mostra: dispersão dos top-8 candidatos entre zonas

O boxplot de votos por zona para Dep. Federal mostra, para cada eleição (cores = partidos), como os 8 candidatos mais votados do MS distribuem seus votos pelas zonas eleitorais. A mediana da caixa representa a zona «típica» do candidato; a amplitude da caixa (IQR) indica variação entre zonas; pontos externos = zonas excepcionais (outlier de base ou de concentração).

PT (2002–2010): caixas altas e largas — base urbana e distribuída

Candidatos do PT nos ciclos 2002–2010 (Vander Loubet, Antônio Biffi, Zé Orcírio) apresentam medianas de votos por zona mais altas e distribuições mais largas. Isso indica dois fenômenos simultâneos: base forte nas zonas urbanas de Campo Grande e Dourados (medianas altas) e votos espalhados por múltiplas zonas do interior (distribuição larga). O PT era, nesses ciclos, o partido com penetração territorial mais ampla — não dependia de um único reduto.

PSDB (2018–2022): outliers altos nas zonas de Campo Grande

Candidatos do PSDB em 2018–2022 (Rosiane Modesto, Humberto Rezende, Geraldo Resende) apresentam variância maior entre zonas, com outliers altos nas zonas de Campo Grande e Dourados. Isso sugere estratégia de concentração urbana: o PSDB em 2018–2022 mobilizou mais eficientemente os eleitorados das cidades maiores, em vez de construir bases uniformes no interior. O perfil é de candidatura urbana com derramamento para zonas adjacentes.

PL (2022): caixas mais estreitas — eleitorado mais concentrado geograficamente

Candidatos do PL em 2022 (Marcos Pollon, 1.º mais votado com 7,67%) apresentam caixas mais estreitas — votação concentrada em poucas zonas. Isso indica que o PL em 2022 ainda não construiu base distribuída em todo o estado: concentra seus votos em zonas específicas do sul e centro do estado, onde o eleitorado ruralista e conservador é mais denso. É o perfil de um partido em consolidação territorial — diferente do PT de 2006 ou do PSDB de 2018.

Padrões transversais: síntese analítica

Persistência dos currais no interior

Municípios menores — especialmente nas fronteiras oeste e sul — apresentam Gini elevado, HHI alto, baixa alternância (mapa hegemonia_ms) e concentração por zona (F5). A estrutura de poder local produz padrões eleitorais estáveis que resistem a mudanças nacionais. Esses são os mesmos municípios em vermelho-escuro nos mapas F1 e magenta nos F3.

Campo Grande: arena de fragmentação e volatilidade

A capital aparece em tons claros nos mapas F2 e F3, com alta alternância partidária (3–5 partidos no mapa hegemonia), caudas longas no ridge plot e votos dispersos no boxplot por zona. É o único município que suporta múltiplos deputados estaduais com base simultânea (H4) e o único onde a lógica de reduto se dissolve em favor de redes de candidatura urbanas.

Conjuntura nacional amplificada pelo majoritário

Os mapas senatoriais revelam como ciclos políticos nacionais pintam o estado inteiro da mesma cor (2006, 2022) ou fragmentam o mapa (2010, 2014). Para deputados, o efeito é suavizado pelo voto personalista — mas o gráfico ideo_cg mostra que mesmo o proporcional seguiu a vaga conservadora, cruzando o limiar de centro em 2014–2018.

Deriva ideológica: ~2 pontos para a direita em 20 anos

O gráfico ideo_cg documenta uma deriva sistemática de esquerda para direita ao longo de seis eleições. O bubble chart (ideo_bubble) mostra que isso se deu pelo crescimento da bolha de partidos de direita — não por mudança de posição dos partidos existentes. O mapa mapa_ideo mostra que a deriva começou no sul e foi atingindo o centro e o norte.

Carreiras longas resistem à deriva partidária

Os gráficos de trajetória (G2, H2, I2) mostram que candidatos com bases consolidadas sobrevivem às mudanças ideológicas — frequentemente trocando de partido para se manter competitivos (Geraldo Resende em 4 partidos diferentes). Os redutos em G4 e H4 pertencem mais a candidatos do que a partidos: a territorialidade é pessoal. O HHI por zona (F5) confirma: os picos zonais persistem mesmo quando o partido muda.

PMDB/MDB: ascensão, hegemonia e colapso

Nenhum partido ilustra melhor a dinâmica de MS do que o PMDB. Dominante na ALEMS por três legislaturas (H3), presente em todos os mapas de partido dominante até 2014, e praticamente ausente em 2022 tanto no federal (G3) quanto no estadual (H3). O colapso é visível nos mapas — a cor laranja some progressivamente — e o mapa hegemonia mostra que os redutos históricos do PMDB são exatamente os que mais trocaram de partido dominante após 2014.

O índice de Gini eleitoral foi calculado por município, utilizando os votos nominais por candidato em cada localidade. Valores foram normalizados para o intervalo [0,1]. Para os cargos proporcionais (Deputado Federal e Estadual), a escala dos mapas vai de 0,75 a 0,90 — faixa em que praticamente todos os municípios brasileiros se situam nessas eleições. Para o Senado, a escala foi expandida para capturar a maior variação associada a eleições majoritárias com poucos candidatos. O HHI (Índice de Herfindahl-Hirschman) foi calculado como a soma dos quadrados das proporções de votos de cada candidato por município/zona, resultando em valores entre 0 (fragmentação máxima) e 1 (monopólio perfeito). As classificações ideológicas seguem a escala 1–10 de Power & Zucco (2009), com atualizações pontuais de Bolognesi (2013) para partidos surgidos após 2009. A análise foi realizada em R (versão 4.2.2) com os pacotes electionsBR, geobr, dplyr, ggplot2 e patchwork. Fonte dos dados eleitorais: TSE via pacote electionsBR (Cepaluni, Mignozzetti & Freitas, 2016). Shapefile dos municípios: pacote geobr (Pereira & Gonçalves, 2021). Dados brutos disponíveis no portal de dados abertos do TSE: dadosabertos.tse.jus.br.

  • Bolognesi, B. (2013). A seleção de candidaturas no DEM, MDB, PSDB e PT: critérios partidários nacionais, mecanismos e processo político interno. Revista de Sociologia e Política, 21(46), 33–51.
  • Cepaluni, G., Mignozzetti, U., & Freitas, R. (2016). electionsBR: R functions to download and clean Brazilian electoral data. R package. Disponível em: CRAN.
  • Nicolau, J. (2006). O sistema eleitoral de lista aberta no Brasil. DADOS — Revista de Ciências Sociais, 49(4), 689–720.
  • Neiva, P., & Izumi, M. (2012). Os 'doutores' da federação: formação acadêmica dos senadores brasileiros e variáveis associadas. Revista de Sociologia e Política, 20(41), 171–192.
  • Pereira, R. H. M., & Gonçalves, C. N. (2021). geobr: Loads Shapefiles of Official Spatial Data Sets of Brazil. R package. Rio de Janeiro: IPEA. Disponível em: CRAN.
  • Power, T. J., & Zucco, C. (2009). Estimating Ideology of Brazilian Legislative Parties, 1990–2005: A Research Communication. Latin American Research Review, 44(1), 218–246.
  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados de votação por município e zona eleitoral, eleições 2002–2022. Portal de Dados Abertos: dadosabertos.tse.jus.br.